10.23.2006

 
MÍDIA NEGRA: APONTAMENTOS

Palestra proferida por Sátira Machado, na III Jornada de Estudos Afro-Brasileiros do GT Negros da ANPH, no Memorial do Rio Grande do Sul, em 2005.

Os meios de comunicação têm um papel importante na desconstrução das desigualdades sociais no Brasil que atingem diretamente os afro-brasileiros . No século XXI, já não basta dar visibilidade ao fenótipo negro na mídia. À luz da responsabilidade social, a mídia deve respeitar a história, a memória e a tradição dos afro-brasileiros. Deve valorizar a participação cultural, social e econômica da comunidade negra no desenvolvimento do Brasil bem como, noticiar aspectos positivos do continente africano.

Neste trabalho, ao listar diversas informações, pretendo estimular novas investigações e reflexões sobre a relação entre os afro-brasileiros e a mídia, sem a pretensão de esgotar o tema que é rico, dinâmico, suscita muitas e muitas leituras, mais e mais debates.

MÍDIA NO SÉCULO XXI:
NÓS SOMOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO


Na sociedade contemporânea, a identidade construída a partir de uma estrutura social, antes determinada pelas mediações tradicionais como a família, a religião, o Estado, a escola e o trabalho, agora é atravessada pela estrutura da mídia, que assume um lugar social ao ditar condutas padronizadas para diferentes populações (PAIVA, 2001).

John Thompson elabora uma teoria social da mídia e salienta que os teóricos sociais têm dado pouca importância ao poder simbólico dos meios de comunicação, que vem transformando o mundo desde a crescente circulação de materiais impressos no século XV até o advento da Internet (THOMPSON, 1998).

Na atualidade, a comunicação é interpretada como um processo simbólico que transforma a realidade. A interação com os meios envolvem reelaborações realizadas pelos sujeitos, influenciados por seus grupos sociais e culturais. Nesse contexto, o sentido de cultura passa a ter relação com a produção de sentidos, deixando de ser apenas recebida, agora considerando o sujeito um agente, criativo, que pratica cultura. Carregada de intervenções, o ambiente da comunicação e da cultura inclui as disputas, os conflitos e os enfrentamentos nas relações de poder de uma sociedade dinâmica e plural.

Conscientes disso, afro-brasileiros comunicam-se cada vez mais e apropriam-se de jornais, filmes, rádios, revistas, vídeos, da televisão e da Internet, entre outros meios de comunicação, para a afirmação da identidade negra.

IMPRENSA NEGRA:
CONTRA O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL


A Imprensa chega ao Brasil em 1808 e desde 1833 os afro-brasileiros editam periódicos para reagir ao mito da democracia racial brasileira, dando visibilidade às questões raciais através de uma imprensa alternativa negra, num contraponto à grande imprensa brasileira.

Nas décadas de 30 e 40, a teoria de Gilberto Freyre sobre a democracia racial brasileira, baseada na miscigenação sexual, era aceita pelos intelectuais da cultura dominante, mas contestada pela imprensa negra. Nos anos 50 e 60, novas concepções da identidade nacional foram estudadas por Florestan Fernandes e revisionistas da Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, questionando o mito da democracia racial. (ANDREWS, 1997).

Os geneticistas têm desmoralizado o conceito de raças. No entanto, o Movimento Negro baseia o conceito de raça na dimensão social e política do termo, uma vez que quando se fala em racismo no Brasil logo se pensa no negro. A discriminação racial brasileira tem relação com aspectos culturais, sociais, econômicos, físicos e estéticos, que atingem diretamente os afro-brasileiros. Construir uma identidade negra positiva na sociedade brasileira, que ensina aos negros que para ser aceito é preciso rejeitar seu jeito de ser, é um desafio para todos os brasileiros (GOMES, 2005).

No exercício de elaboração da identidade negra , ao longo dos anos, os afro-brasileiros publicaram vários jornais. No Rio Grande do Sul, a imprensa negra é legitimada com periódicos como: O Exemplo (Porto Alegre, 1892-1930, num total de 37 anos de publicação), A Cruzada (Pelotas, 1905), A Alvorada (Pelotas, 1907- 1910, 1930 – 1937 e 1946 – 1957), A Navalha (Santana do Livramento, 1931), A Revolta (Bagé,1925), A Hora (Rio Grande, 1917-1934), entre outros (SANTOS, s/d).

Jacira Reis da Silva estuda as mulheres negras e a participação delas na luta por educação através do jornal A Alvorada, de Pelotas. Ela ressalta o papel alternativo desse periódico na formação cultural e educacional da comunidade negra, bem como a presença marcante das mulheres negras na imprensa negra pelotense. Diz que o significado do jornal A Alvorada torna-se ainda maior, na medida em que ele é portador das vozes de mulheres negras, em períodos históricos onde o espaço público, ainda, é predominantemente ocupado por homens brancos (SILVA, 2001).

Ainda no RS, Oliveira Silveira destaca a publicação de informativos de clubes fundados pela sociedade negra, a exemplo de alguns periódicos ligados a Associação Satélite Prontidão, ao Clube Náutico Marcílio Dias e a Sociedade Floresta Aurora. Em 1971, Ano Internacional para Ações de Combate ao Racismo e a Discriminação Racial – ONU, a grande imprensa gaúcha abre espaço para a divulgação da primeira evocação ao "Dia Nacional da Consciência Negra” do Brasil, que foi celebrado na sede do Clube Marcílio Dias, em Porto Alegre. A escolha da data foi fruto de encontros de negros na Rua dos Andradas, que resultou na criação do Grupo Palmares, do movimento negro do Rio Grande do Sul (SILVEIRA, 2003) .

Nas décadas de 70 e 80, Tição é o marco da imprensa negra gaúcha. Redatores como Edilson Nabarro, Irene Santos, Jeanice Viola, Jones Lopes, Jorge Freitas, Oliveira Silveira, Valter Carneiro, Vera Daisy Barcellos, Vera Lúcia Lopes, fotógrafos, ilustradores, colaboradores, editores gráficos e muitos outros comunicadores negros publicam o Tição (Revista 1978 – 1979 e Jornal em 1980), motivando o debate sobre as várias faces da negritude (SILVEIRA, 2005).

DIREITO À COMUNICAÇÃO:
QUESTÃO DE DIREITOS HUMANOS (DH)


A ONU – Organização das Nações Unidas foi instituída em 1945, por vários estados-membros. Em 1948, a Assembléia Geral da ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, um instrumento de proteção dos DH que atribui à “Toda pessoa o direito (...) de buscar, receber e enviar informações”.

Após a Segunda Guerra Mundial (1949) foram criados dois Sistemas Internacionais de Proteção de Direitos Humanos, os sistemas Global e Regionais. Os sistemas encontram-se em reuniões, assembléias, cúpulas e realizam conferências mundiais para receber recomendações dos estados-membros. Elaboram declarações, convenções, pactos, tratados, protocolos, programas de ação e comentários gerais que são adotados por comitês, cortes e comissões responsáveis por análises de petições e publicações de relatórios pertinentes aos DH.

O Sistema Global está ligado às Nações Unidas e os Sistemas Regionais abrangem o Sistema Europeu, o Sistema Africano e o Sistema Interamericano da OEA - Organização dos Estados Americanos. Em 1963, a ONU aprovou a Declaração das Nações Unidas para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial (ALMEIDA, 2006).

Desde então, a mídia passa a ser alvo de denúncias contra a violação dos Direitos Humanos. Por exemplo, em 1968, o presidente Lyndon Johnson dos EUA, reconhecendo as ações discriminatórias da mídia estadunidense, recomenda a formação da Comissão Kerner, em prol da preservação dos direitos civis dos afro-descendentes norte-americanos na mídia (CONCEIÇÃO, 2005).

Na década de 70, a ONU patrocinou a publicação do Relatório Mac Bride. Nele, a Comissão Internacional para o Estudo dos Problemas de Comunicação a respeito da Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação – NOMIC incluiu a diversidade cultural nas questões de mídia. No Brasil, organizações como a CRIS Brasil, Intervozes, Jornal Brasil de Fato, Instituto de Mídia Étnica, Projeto Calaboca Já Morreu, Sociedade Cultural Dombali, entre outras frentes, muito têm trabalhado pelos DH na mídia.

Em 25 de fevereiro de 2005, o presidente da CIDH – Comissão Interamericana de DH da OEA, Clare K. Roberts (negro), criou a Relatoria Especial sobre os Direitos dos Afro-descendentes e contra a Discriminação Racial, passando a recomendar reparações efetivas a cerca da violação dos DH nas Américas . Em junho de 2005, Clare Robert recebeu a comissão de comunicadores afro-brasileiros, presentes na 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. A comissão elaborou um diagnóstico nacional de como a mídia brasileira vem comprometendo a memória e a tradição da comunidade negra.

Em 2005, o ENCONTRO NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS: Direito Humano à Comunicação - um mundo, muitas vozes, realizado pela Câmara dos Deputados (Comissão de Direitos Humanos e Minorias – Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos) dá dimensão nacional à reflexão sobre as violações dos direitos dos afro-brasileiros na mídia, que está diretamente relacionado à propagação do racismo nos meios de comunicação brasileiros.

RACISMO NA MÍDIA:
A CONTRA PROPOSTA


Em 1995, por ocasião dos 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares, assassinado em 1665, ocorreu a Marcha Zumbi quando o Movimento Negro brasileiro se reuniu na Esplanada dos Ministérios em Brasília, para reivindicar justiça social. Nesse ano, a Folha de São Paulo patrocinou uma pesquisa para medir o grau de preconceito racial do brasileiro, ofuscado pelo mito da democracia racial no país. O caderno especial lançado pela Folha foi chamado de “Racismo Cordial”, denotando a dissimulação do racismo no Brasil, que pode ser medido nas desigualdades sociais que atingem os afro-brasileiros (CONCEIÇÃO, 2005).

Muniz Sodré analisa o papel da mídia em produzir e reproduzir o preconceito, conceituando o racismo midiático. Sodré enumera quatro fatores que efetivam sua análise: 1) a negação, quando a mídia tenta negar a existência do racismo, apesar de noticiar casos de violações flagrantes; 2) o recalcamento, quando a História do negro no Brasil ou nas Américas não é divulgada de forma positiva na mídia; 3) a estigmatização, quando a mídia cria estereótipos que levam a discriminação; e 4) a indiferença profissional, quando a desvalorização – profissional e cultural – do comunicador negro atinge a mídia (SODRÉ, 1998).

Em 2006, por exemplo, a mídia gaúcha veiculou o episódio que envolveu os jogadores do Juventude de Caxias e do Grêmio. Durante a partida, o zagueiro Antonio Carlos ofendeu o jogador gremista Jeovânio (negro), ao referir-se a sua cor. Infelizmente, a mídia tem reduzido o debate sobre as questões que envolvem os afro-brasileiros supervalorizando violações flagrantes como o racismo no futebol ou divulgando debates conflitantes a respeito das cotas.

A imagem estereotipada do negro na teledramaturgia é uma das perspectivas estudadas pelo pesquisador Joel Zito Araújo no livro A negação do Brasil. Ao analisar 174 telenovelas do período de 1964 a 1997, ele aponta o tratamento dado à maioria das personagens negras na tevê, que ainda reforça o mito da democracia racial como mantenedor das desigualdades étnico-sociais no Brasil (ARAÚJO, 2000).

Em 2004, o filme do cineasta Joel Zito, “Filhas do Vento”, recebeu 8 Kikitos no Festival de Cinema de Gramado/RS. As declarações controversas do presidente do júri, Rubens Ewald Filho, que disse ser a prêmiação uma concessão no Estado mais racista do país, fez o elenco sugerir a devolução dos kikitos, chamando a atenção de todo o Brasil para as questões de racismo na mídia.

No XXVII INTERCOM (PUCRS/POA), Dennis de Oliveira e Maria Ângela Pavan apresentaram uma analise da novela Da Cor do Pecado, protagonizada por Taís Araújo na Rede Globo. Ao descrever as estratégias e movimentos das personagens, enumeram possibilidades de relações raciais veiculadas na trama, como: a) ao assumir a identidade racial negra e partir para a confrontação, há uma desqualificação da imagem da personagem através da punição ou isolamento; b) a postura abertamente racista, de segregação e abuso do poder, leva a desvalorização moral da imagem, à vitórias pontuais, mas numa perspectiva de derrota; c) a postura de passividade e de vitimização é assumida pela heroína da história; d) a postura de preconceito velado com possibilidades de abertura, denota tolerância; e) a postura de solidariedade é reforçada por normas morais pretensamente universais (OLIVEIRA, 2004).

Na Internet o racismo é explícito. A Agência Afro-Étnica de Notícias (Afropress) é um projeto da ONG ABC sem Racismo/SP que mantém o site www.afropress.com. A Afropress tem sofrido ataques de hackers racistas que a tiram do ar, ao provocar a lentidão do servidor que a hospeda e divulgam várias mensagens discriminatórias dirigidas ao jornalista Dojival Vieira. O Ministério Público identificou o hacker através de programas especializados de Internet. O criminoso está respondendo processo de racismo e várias entidades de mídia étnica realizaram campanhas de apoio à Afropress.

Na contramão da história da tevê brasileira, a TV DA GENTE foi ao ar no dia 20 de novembro de 2005. A TV DA GENTE é a primeira emissora brasileira que pretende dar ampla visibilidade ao universo dos afro-brasileiros na mídia. O canal é do músico, ator, apresentador e empresário afro-brasileiro José de Paula Neto (Netinho de Paula). O projeto inclui a contratação de uma maioria de profissionais negros, a veiculação da cultura africana e afro-brasileira em sua programação e a divulgação de produtos de consumo para afro-brasileiros. Em maio de 2006, a TV DA GENTE está no ar em São Paulo pelo canal 24 UHF, no Ceará pelo canal 19 UHF (local da concessão do canal) em Portugal pelo canal 8 da operadora Eletrônica Comunicações. Através de antena parabólica, os satélites transmitem para todo o Brasil, para a África, a Europa, parte da Ásia e da costa leste dos Estados Unidos e a transmissão ainda prevê o acesso via WEBTV ONLINE (www.tvdagente.com.br).

MEIOS DE COMUNICAÇÃO:
AÇÕES AFIRMATIVAS


O projeto de Lei Nº 3.198/2000, de autoria do senador Paulo Paim, institui o ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL. O estatuto tem o objetivo de combater a discriminação e as desigualdades raciais, bem como incluir a dimensão racial nas políticas públicas desenvolvidas pelo Estado. O capítulo VIII do estatuto versa sobre os meios de comunicação. Exige que a mídia respeite a herança cultural dos afro-brasileiros, dê visibilidade aos afro-brasileiros, dê oportunidades de trabalho aos comunicadores afro-brasileiros e seja punida se incitar à discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional na mídia (PAIM, 2003).

Em 2000, ocorreram várias reuniões nas Américas sobre iniciativas de combate ao racismo e todas as formas de discriminação. Em 21 de agosto de 2001, foi realizado o Seminário Mídia e Racismo na Universidade Cândido Mendes/RJ. Muitos dos comunicadores, dos profissionais, dos pesquisadores e dos artistas que participaram desse encontro representaram o Brasil na III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, em Durban na África do Sul, entre 30 de agosto a 7 de setembro de 2001 .

Em janeiro de 2003, a Lei 10.639/2003 entrou em vigor. De autoria do deputado Ben Hur Ferreira e da deputada Esther Grossi, a lei torna obrigatório “o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira”, “o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil” e dá outras atribuições. A Lei 10.639/2003 tem mobilizado várias frentes, inclusive projetos de mídia, multiplicando as ações afirmativas em benefício da comunidade negra brasileira .

Criada em março de 2003 e ligada diretamente ao Governo Federal Brasileiro, a SEPPIR - SECRETARIA ESPECIAL DE POLÍTICAS DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL deu status de ministra à militante negra Matilde Ribeiro. De forma transversal, a ministra passou a influenciar todos os ministérios nas mesas de negociação, em prol da promoção da igualdade racial em várias áreas, impulsionado reflexões também na América Latina. A SEPPIR é uma conquista do Movimento Negro do Brasil e promove a igualdade racial da comunidade negra, mas também das comunidades indígena, cigana, árabe-palestina e judaica.

Entre várias outras ações, a SEPPIR mobilizou todos os Estados do Brasil ao propor a realização de conferências estaduais para a eleição de delegados que participaram da 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial – 1ªCONAPIR, em 2005. A SEPPIR e a Sub-Comissão de Comunicação da 1ªCONAPIR convidaram vários comunicadores, jornalistas e voluntários que atuam em meios de comunicação voltados para o público negro para a cobertura do evento. Os eixos temáticos da conferência nacional não previam um grupo de trabalho sobre políticas para a mídia. No entanto, tais comunicadores formaram um GT de Mídia Étnica e articularam a moção e o manifesto contra o apartheid midiático no Brasil. No documento, estabelecem diretrizes de comunicação a serem incluídos no Plano Nacional da Igualdade Racial, aprovados na plenária da Conferência.

Em 2005, Ano Nacional de Promoção da Igualdade Racial, a SEPPIR também lançou o projeto A Cor da Cultura (www.acordacultura.org.br), em parceria com a Petrobrás, o Cidan - Centro Brasileiro de Identidade e Documentação do Artista Negro, a TV Globo e a Fundação Roberto Marinho, por meio do Canal Futura.

No programa Ação da TV Globo, o apresentador Serginho Groisman passou a exibir várias reportagens sobre a cultura afro-brasileira, como por exemplo, as ações da ONG Maria Mulher em bairros de Porto Alegre. A ex-Big Brother Brasil I, Vanessa Melani Pascale Ekpenyong passou a ser a apresentadora infantil (negra) do projeto A cor da Cultura no Canal Futura. Nele, a série Livros Animados traz lendas e contos africanos e afro-brasileiros, além da produção dos principais autores e ilustradores nacionais, para crianças de todo o Brasil.

Vale ressaltar, que as múltiplas ações do Movimento Negro têm multiplicado a implantação de secretarias, assessorias e coordenadorias instaladas em órgãos públicos municipais, estaduais e federais para atender a demanda da promoção da igualdade racial, e que essas também incluem a temática da mídia em suas agendas.

ESTUDOS AFRO-BRASILEIROS:
A HORA E A VEZ DA ACADEMIA


Desde 1947, escolas de jornalismo são criadas no Brasil e posteriormente escolas de cinema e publicidade. Em 1960, as faculdades de comunicação surgem no ensino superior, incluindo as áreas de relações públicas, editoração, rádio e televisão. Em 1977, nasce a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM), que ao longo dos anos tem motivado os pesquisadores a estudarem temas relacionados à mídia, à diversidade cultural e ao direito à cidadania.

Há anos, o jornalista e antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt reflete sobre a invisibilidade do negro na mídia gaúcha. Ele foi um dos pioneiros a debater o tema nas salas de aula da Famecos - Faculdade de Comunicação da PUCRS, onde era professor (negro). Ele acredita que as escolas de comunicação são um importante instrumento de desconstrução do racismo na sociedade brasileira, para além das cotas.

No Brasil, segundo o Ministério da Educação, existem 324 cursos de jornalismo. Porém, somente nas últimas décadas, os estudos do negro na mídia são institucionalizados na academia com o Grupo de Estudos em Mídias e Etnicidades, da Faculdade de Comunicação (Facom), da Universidade Federal da Bahia (criado em 1997); o Grupo Mídia e Etnia, da ECA/USP (criado 2002); e o Departamento de Estudos Culturais e Mídia (GEC), do Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS), da Universidade Federal Fluminense (criado em 2003), propiciando um impacto científico.

O Grupo Mídia e Multiculturalismo, coordenado pela Profª Denise Cogo, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, também inclui pesquisas sobre a relação entre a mídia e os afro-brasileiros. No Google, aparecem cerca de 117 núcleos de estudos sobre os afro-descendentes nas Universidades dos EUA (Historically Black American Colleges and Universities/USA). No Brasil, existem cerca de 30 centros de estudos com a temática do negro em várias áreas do conhecimento, que vem se multiplicando a cada ano. Os primeiros foram o Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), da Universidade da Bahia (1960); o Centro de Estudos Afro-Asiáticos, da Universidade Cândido Mendes/RJ (1973); e o Centro de Estudos Africanos, da USP (1978) (OLIVA, 2005).

OS GAÚCHOS E A MÍDIA:
GUERREIROS & GUERREIRAS


Em 1987, Susana Ribeiro e Juarez Ribeiro criaram o Cecune - Centro Ecumênico de Cultura Negra, em Porto Alegre. Desde então, são protagonistas no projeto Universidade Livre - Curso de Cidadania e Reconstrução da identidade Étnica; realizam mostras de cinema e vídeo com o recorte étnico negro; editam o Jornal Como é (1995 – 1998); publicam a Revista Conexão Negra (a partir de 2003); montam espetáculos musicais com gravação do repertório em CDs; mantém o coral Cecune Comunicação; realizam oficinas de produção de bonecas e artigos étnicos; e marcam presença na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, disponibilizando livros da temática do negro, inclusive bibliografias de comunicação, na Banca do Cecune.

Em 2001, foi criado o Núcleo de Jornalistas Afro-descendentes do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul. Santa Irene e Jeanice Ramos impulsionaram a criação do núcleo gaúcho, que já conta com um cadastro de 64 comunicadores sindicalizados. Em 2004, Vera Daisy Barcellos, Vera Cardoso, Silvia Abreu, Everton Costa (Tom), entre outros comunicadores, não mediram esforços para realizar I Seminário O Negro na Mídia: a invisibilidade da cor, em Porto Alegre, para debater os reflexos do preconceito na mídia. O núcleo do RS mantém interlocuções com a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas/SP (Cojira –SP) e com a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas/RJ (Cojira-RJ), também para a inclusão da temática na agenda nacional da Federação de Jornalistas.

O documentarista , radialista e DJ Claudinho Pereira muito tem contribuído com a divulgação da cultura afro-brasileira para os gaúchos. O documentário “Ilha Negra”, sobre as congadas da comunidade da região de Osório-RS - Terno de Maçambique e o documentário “O Príncipe Negro”, que resgata a vida do Príncipe Custódio na coleção Histórias Extraordinárias da RBS/TV, registram algumas particularidades da cultura afro-gaúcha. Ainda destaco o premiado Documentário “Brasil: Eterno Quilombo?”, dirigido por Julio Teixeira, premiado no Festival de Gramado e no EXPOCOM.

A Fundação Piratini do RS apresenta o comunicador Grandmaster Nezzo e sua equipe, no programa Hip Hop Sul da TVE. O programa contempla a cultura hip hop como um todo ao apresentar o grafite, os DJs, a dança e o rap, através de matérias sócio-educativas, entrevistas, clipes, oficinas e serviços de utilidade pública. Em 2006, há mais de 4 anos no ar, o programa já gravou em vários municípios gaúchos, no Rio de Janeiro e São Paulo.

Malu Viana é mulher negra, comunicadora em várias frentes. É membro do Conselho Nacional de Juventude (CONJUV) e da Organização da Frente Brasileira de HIP-HOP/RS. Exalta a juventude e a mulher no Hip Hop, impulsiona a Cufa/RS -Central Única das Favelas do RS e é atuante no programa Confraria Castro Alves, da TV Assembléia (Canal 16 da NET), que foi ao ar em 2005. Ao lado do Profº Waldemar Pernambuco Moura Lima e outros afro-comunicadores, Malu explora vários temas relacionados à cultura negra no programa.

Outros comunicadores afro-brasileiros têm desempenhado um papel importante na mídia gaúcha e brasileira, como por exemplo: Isabel Clavelin (Seppir) e Saroba – com ações na Restinga - Projeto Comunicativa da ACMUN; Oscar Henrique Cardoso – gaúcho na assessoria de comunicação da Fundação Palmares; Silvia Abreu – premiada produtora cultural; Julinho Ferreira – TV Unisinos; Mãe Carmem de Oxalá – Rádio Comunitária em Guaíba; Radialista Pai Áureo; Jones Lopes da Silva – do grupo de editores do jornal Zero Hora; Deivison.Campos – da Rádio Gaúcha; Julieta Amaral – da RBS/TV Rio Grande; Manoel Soares – da RBS/TV Porto Alegre, entre muitos outros.

A Mídia Étnica no Brasil também tem se projetado através da explosão das rádios comunitárias (a partir da década de 90); o início da circulação nacional do Jornal Irohin de Brasília (1995); a primeira publicação da Revista Raça (1996), a divulgação da temática afro-brasileira, incluindo a cultura Hip Hop, em sites da Internet; do programa “Negro em debate” da emissora Rede Vida, a aparição na TV do âncora negro, Heraldo Pereira no Jornal Nacional (2002), desencadeando o processo de exibição de jornalistas negras - âncoras no SBT, na TV Cultura e em outras emissoras.

Assim, esses e outros fatos históricos têm influenciado as análises dos meios de comunicação do Brasil, e deve estimular mais debates no Rio Grande do Sul, sobre a responsabilidade social da mídia em promover a igualdade racial num país com dimensão multicultural dos vários “brasis” .

REFERÊNCIAS & SUGESTÕES DE LEITURAS

ANDREWS, George Reid. Democracia racial brasileira 1900-1990: um contraponto americano. Estudos Avançados. São Paulo: vol.11, n. 30, May/Aug, 1997.
ARAÚJO, Joel Zito. A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira. São Paulo: Senac, 2000.
RAMOS, Silvia. (Org.) Mídia e Racismo. Rio de Janeiro: Pallas, 2002.
CONCEIÇÃO, Fernando. Mídia e Etnicidades: no Brasil e nos Estados Unidos. São Paulo: Livro Pronto, 2005.
GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma breve discussão. In.: Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Brasília: Ministério da Educação, Secad, 2005.
HALL, Stuart. A identidade em questão. trad. Tomaz Tadeu da Silva & Guacira Lopes Louro. 7ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
MUNANGA, Kabengele. A difícil tarefa de definir quem é negro no Brasil. Estudos Avançados [online]. 2004, vol.18, no.50 [cited 21 May 2006], p.51-66.
OLIVEIRA, Dennis de. PAVAN, Maria Ângela. Identificações e estratégias nas relações étnicas na telenovela "Da Cor do Pecado". Trabalho apresentado ao NP13 - Comunicação e Cultura das Minorias do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom, 2004.
PAIVA, R. Minorias flutuantes, novos aspectos da contra-hegemonia. Anais do 24. Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Campo Grande/MS, setembro 2001 [cd-rom]. São Paulo: Intercom, 2001.
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SANTOS, José Antônio dos. Raiou a Alvorada: Intelectuais negros e imprensa - Pelotas (1907-1957). Pelotas: Universitária, 2003.
SILVEIRA, Oliveira. Palavra de Negro. In. SANTOS, Irene (org). Negro em Preto e Branco: história fotográfica da população negra de Porto Alegre. Porto Alegre: Do Autor, 2005
SILVEIRA, Oliveira. Vinte de Novembro: história e produção do conhecimento. In. SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves e SILVÉRIO, Valter Roberto. (org). Educação e Ações Afirmativas: entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica. Brasília: INEP, 2003.
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VAINFAS, Ronaldo. Ideologia e escravidão – os letrados e a sociedade escravista no Brasil Colonial. Petrópolis: Vozes, 1986.
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ALMEIDA, Guilherme. GOMES, Verônica. IKWA, Daniela. PIOVESAN, Flávia. Curso de Formação de Conselheiros em Direitos Humanos. Ágere Cooperação em Advocacy. Secretaria Especial dos Direitos Humanos/PR. Abril:2006
OLIVA, Anderson Ribeiro. O Ensino da História da África em debate. In.: Curso de Formação de Professores Ensino Afro-Brasil. Ágere Cooperação em Advocacy. Universidade de Brasília/DF: 2005.

Comments:
Olá,

parabéns pelo instrutivo blog de vocês.

Muito útil, saibam.

Sempre em frente, vamos lá.

Biblioafro.
 
Revolução Quilombolivariana! REQBRA
e o verdadeiro povo brasileiro apóia e é solidaria a o grande líder libertador Muammar Kadafi na luta e soberania do povo líbio ao contrario da mídia e a elite dominante fascista e judaica sionista brasileira,que apóia e torce por Hordas imperialistas piratas predadores assassinos dos EUA e OTAN, querendo saquear o petróleo da Líbia e a Amazonas do Brasil.
Revolução Quilombolivariana! REQBRA
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Revolução Quilombolivariana e bradaram Vivas! a Simon Bolívar Viva! Zumbi! Tupac Amaru! Benkos BiojoS! Negra Hipólita! Sepé Tiaraju Alicutan! Sabino! Elesbão! Luis Gama, Lima Barreto,Cosme Bento! José Leonardo Chirinos ! Antônio Ruiz,El Falucho! João Grande e Pajeú ,João Candido! Almirante Negro! Patrice Lumumba! Viva Che! Viva Martin Luther King! Malcolm X! Viva Oswaldão Viva! Mandela Viva! Luiz I.Lula da Silva, Viva! Chávez, Vivas! a Evo Ayma! Rafael Correa! Fernando Lugo!José Mujica(El Pepe)!FViva! a União dos Povos Latinos afro-ameríndios,! 1º de maio,
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Por Secretário Geral Antonio Jesus Silva
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Na longa e bela lista de celebridades negras que atuaram na imprensa, senti a ausência de Lima Barreto, a meu ver o mais popular e atuante!... Affonso Henriques de Lima Barreto, 1881-1922, romancista e jornalista negro de vanguarda, deixou-nos inclusive uma peça de teatro, intitulada "Os Negros", sobre quilombolas na noite à beira mar, ansiando o retorno à mãe África...
 
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